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Os desafios da educação na sociedade do conhecimento

Por Marcos Cavalcanti

Convivemos com um tremendo paradoxo: não vivemos mais na sociedade para a qual continuamos a ser educados para viver. Nossa educação nos prepara para a sociedade industrial, mas já estamos num mundo onde o conhecimento se transformou no principal fator para se criar valor.

Nem sempre foi assim. Houve uma época onde terra era o principal fator de produção. Nesta sociedade agrícola, os grupos mais poderosos eram os donos de terra, os senhores feudais. No caso brasileiro, os “barões do café” e os senhores de engenho. Num determinado momento da história, esse mundo ruiu. A chamada Revolução Industrial, no fim do século XVIII/início do século passado, veio para transformar completamente o ambiente econômico e social, abalar crenças, rever valores. O poder mudou de mãos, a maneira de ver o mundo mudou. Quando o Brasil foi descoberto (em plena era agrícola), se acreditava que a Terra era o centro do universo. O modo de produção era artesanal. Um artesão controlava todo o processo produtivo, desde a escolha da madeira mais adequada, passando pela feitura de uma mesa (por exemplo), até sua comercialização.

A Revolução Industrial inaugura a chamada modernidade e simboliza uma mudança de paradigma. O homem e a racionalidade passam a ocupar o centro do pensamento dito científico, e assistimos a emergência e hegemonia do paradigma cartesiano. A Revolução Francesa é um dos símbolos da passagem da França agrária, feudal e aristocrática para a França industrial, burguesa e capitalista. Aqueles que foram queimados como herege, por dizerem que o sol estava no centro do universo, foram resgatados. Os artesãos praticamente desapareceram, substituídos por fábricas automatizadas, que conseguiam fazer muito mais mesas, em menos tempo e a um custo muito menor.

Vivemos hoje outra revolução, da mesma magnitude e importância. É um processo de transição de um mundo tipicamente industrial onde terra, capital, trabalho, energia e matéria-prima eram os cinco fatores de produção chave no processo de criação de riqueza, para um mundo onde o conhecimento se transformou no principal fator de produção de valor. Em 2000, mais da metade da riqueza do mundo, segundo a Organização para Cooperação em Desenvolvimento Econômico (OCDE), veio do conhecimento. Em 2006, 55% das exportações americanas foram de bens intangíveis. Um bem intangível é um bem que eu não consigo segurar na mão (não tem átomos): software, produtos da indústria cultural (filme, música, programa de TV, informação), biotecnologia, patentes, pagamentos de royalties... Ou seja, mais da metade da riqueza que circulou no mundo não utilizou nenhum meio de transporte tradicional (caminhão, avião ou navio) e, portanto, não teve sua entrada no Brasil em nenhum posto controlado pela Polícia Federal!

E nossa educação? Nossa educação continua a mesma! Continuamos a despejar toneladas de conteúdo nas cabeças de nossas crianças de uma forma fragmentada e cartesiana. Todo o esforço está na aquisição de informações. O pressuposto é de que quanto mais informações o aluno tiver, maiores serão suas chances na vida. Quase nenhum esforço de criatividade e reflexão é exigido. Apenas decorar e repetir.

Exatamente como o mundo industrial exigia. Para Ford, um dos grandes “inventores” do modo de produção industrial, “o bom operário devia deixar seu cérebro em casa”. De fato, diante da esteira da linha de montagem onde o funcionário exerce seu trabalho de forma repetitiva e rotineira, qualquer desvio de atenção (para pensar nos filhos ou na vida), vai fazer com que ele deixe de aparafusar uma peça e provocar a parada da produção.

Nossa escola (que nos moldes atuais tem mais de 100 anos) foi estruturada para produzir mão de obra, pessoas capazes de usar suas mãos, mas sem sentimentos, sem cérebro, sem cultura.

“Não vivemos uma era de mudanças. Vivemos uma mudança de era!” (Chris Andersen)

Mas toda mudança de paradigma significa uma revolução no modo de produzir, de pensar, de viver. Aceitar a ideia de que vivemos em uma nova sociedade, na sociedade do conhecimento, implica em repensarmos nossa educação. E para conseguir fazer esta transformação, o primeiro passo é mudar nossa maneira de ver e estar no mundo. Precisamos abandonar esta concepção cartesiana e compartimentada de lidar com a realidade. Ela já não nos serve mais. Os problemas se tornaram mais holísticos, sistêmicos. Dificilmente um especialista consegue dar conta desta complexidade. A divisão do trabalho entre os que pensam e os que fazem está com seus dias contados.

Nesta nova era, criatividade e inovação são exigências do mundo da produção. Se antes a competição era a mola propulsora do desenvolvimento, hoje a colaboração assume papel preponderante. Se as empresas continuarem a ter um ambiente de trabalho competitivo e intolerante ao erro, estarão cada vez MENOS preparadas para sobreviver. De cada 100 ideias novas, menos de três viram produtos e serviços. O que significa dizer que 97 deram “errado”! Mas para termos estas três boas ideias, precisamos experimentar, errar, tentar de novo... O erro faz parte do processo de aprendizagem organizacional. Mas nossas empresas não estão preparadas para isto. Continuam querendo manter seus modelos arcaicos, “científicos”.

Nossa educação precisa estimular a criatividade e a reflexão. No século (e milênio) passado, íamos à escola para receber informação. Sentávamos em nossas carteiras, uns atrás dos outros, abríamos os cadernos e copiávamos o que o professor escrevia no quadro-negro (ou verde)... Depois íamos para casa decorar todas aquelas informações. A escola e o professor eram os donos da verdade, aqueles que nos traziam as informações (mas não o conhecimento!).

Hoje, qualquer das coisas que aprendíamos na escola há 30 anos atrás está na internet, de uma forma muito mais rica e interessante (com imagens, vídeos e links). Qual deveria ser o papel da escola HOJE? E do professor? Não mais os meros provedores da informação, mas os instigadores da reflexão e da produção de conhecimento! Uma “aula” deveria se transformar num espaço de discussão sobre as informações pesquisadas pelos alunos em fontes escolhidas por eles! Se alguém trouxer uma informação incorreta, irão aprender que nem toda fonte de informação é confiável. Estarão exercendo, na prática, o espírito crítico! E muitos podem trazer informações que o próprio professor desconhece, tornando muito mais rica, interessante e informativa a aula!

A mudança na educação é urgente! O tempo joga contra nós. Parafraseando um economista, diria que a educação é um assunto sério demais para ficar nas mãos apenas dos educadores! A sociedade precisa chamar para si este debate sobre que tipo de educação precisamos para a sociedade do conhecimento.

Marcos Cavalcanti é doutor em Informática pela Université de Paris XI, professor e coordenador do Centro de Referência em Inteligência Empresarial da COPPE/UFRJ.