Reportagem
O que é ser contemporâneo?
O futuro já chegou ou a era do presente perpétuo
Por Patrícia Mariuzzo
Um mundo melhor é aqui e agora! Enquanto na Modernidade o mundo melhor que se buscava era sempre outro mundo – do futuro, da revolução, do romantismo – hoje, esse idealismo projetado para fora do mundo que conhecemos foi abandonado. Para o filósofo e psicanalista André Martins, professor associado da UFRJ, “buscamos ser contemporâneos no sentido de buscar soluções efetivas atuais para os problemas atuais. O desejo de se melhorar no micro e não somente por grandes soluções é extremamente contemporâneo”. Na Modernidade, acrescenta, “a necessidade de ser contemporâneo era um furor que buscava a novidade, o novo, em um sentido de um mundo melhor. Esse sentimento era em grande parte motivado pelo progresso da ciência e da razão, porém sempre indicando um mundo melhor e uma vida melhor para os indivíduos. Era preciso ser contemporâneo para não perder o bonde da história”. Assim, segundo Martins, o furor moderno era também, a seu modo, uma fuga do presente, um refugiar-se no sonho, uma depreciação da vida e do mundo real, ou, em uma palavra, um niilismo. Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do final do século XIX, diagnosticou o niilismo como a “doença do século”, tomando como eixo temático a “morte de Deus”. Para Nietzsche, niilismo é a falência de uma avaliação das coisas, que dá a impressão de que nenhuma avaliação seja possível.
Em 1909, há exatos cem anos, o poeta italiano Filippo Marinetti publicava no jornal francês Le Figaro o Manifesto Futurista exaltando a insônia febril da era moderna e afirmando a beleza da velocidade e da máquina: “um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia”, dizia ele, em um claro apelo ao abandono do passado e das tradições, em favor do que era novo. A Modernidade associa tradição com atraso. Abrir as portas da Modernidade significava destruir as marcas do passado, suas igrejas e seus museus em um processo de destronamento de toda tradição. Era como se a história tivesse que ser emancipada de si mesma. O moderno deve se livrar das amarras do passado. Nas palavras do filósofo alemão Zygmund Bauman, derreter os sólidos da tradição para progredir.
A Modernidade associa tradição com atraso.... O moderno deve se livrar das amarras do passado, derreter os sólidos da tradição para progredir. [Zygmund Bauman]
A Modernidade gerou o homem sem vínculos, solto no mundo, cujo lugar é nele mesmo. “A tarefa dos indivíduos livres era usar sua nova liberdade para encontrar o nicho apropriado e ali se acomodar e adaptar: seguindo fielmente as regras e os modos de conduta identificados como corretos e apropriados”, diz ele no livro Modernidade líquida (2001). Trata-se então de uma nova ordem, de um mundo com referências perfeitamente distinguíveis. Fruto do capitalismo nascente e do advento da metrópole, que impõem uma nova relação com o tempo, com o espaço e com a história, o homem moderno confunde-se com o homem burguês. Seu ícone é a velocidade, representada pelas locomotivas.
Charles Baudelaire nos fala sobre o impacto do advento da cidade e a fugacidade do tempo no poema “A uma passante”. Na pressa da metrópole a musa se perde na multidão, ele não a verá jamais, ele perde essa experiência para sempre. A aceleração do tempo não permite ter a experiência das coisas porque, assim como a passante, tudo é passageiro, tudo escapa e se perde. A experiência pode ser comparada à linha com a qual a coletividade vai tecendo a tradição, compondo um passado que tem um sentido exemplar, que orienta a vida e o pensamento. De acordo com Olgária Matos, filósofa da USP, a experiência da individualidade e da subjetividade associa-se à ideia de formação do caráter e de valores, às noções de consciência, direitos e liberdades que constituíam a autonomia do sujeito responsável e autor de si. “Fundava-se na divisa socrática do conhece-te a ti mesmo", explica. “Do ponto de vista coletivo, baseava-se no aperfeiçoamento das instituições sociais e políticas, no aprofundamento da democracia, uma vez que esta não depende dos vícios ou virtudes dos governantes, mas da qualidade de suas instituições”, diz ela. Em um tempo acelerado o aperfeiçoamento das instituições e a formação de valores, de que nos fala Olgária, é precário. Para Bauman, na Pós-Modernidade a aceleração chegou a seu limite. Com as novas tecnologias de informação o homem pode se mover (sem sair do lugar) com a velocidade de um sinal eletrônico. Não há resistência no espaço, não há duração, não há tempo para experiência. Um exemplo desse tipo de tecnologia é o telefone celular que elimina a diferença entre o próximo e o distante, mas não necessariamente aproxima os indivíduos. Disso resulta um tempo com valores frágeis, voláteis, contingentes e fluidos.
Um mundo onde o fundamental é saber identificar qual memória acessar para descobrir o que se quer saber [Jean Lyotard]

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